Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Privacidade

Imagem tirada daqui.

O tema privacidade tem sido debatido, escarafunchado e dissecado neste blog nos últimos vinte e quatro meses, pelo menos. Antes de mim, este tema foi discutido por muita gente boa, especialmente por um sujeito que me fascina e cujos textos são deliciosos: Paul Virilio. Foi através da leitura de um de seus textos que me veio a discussão sobre as câmeras de vigilância, esse olho que nos acompanha no mundo contemporâneo. Filósofo e urbanista, o olhar e a pena inquietos de Virilio analisam a sociedade da informação, a velocidade, a mudança dos paradigmas do mundo moderno, como a confusão que se funda entre a realidade e a virtualidade. Ainda estudante de graduação, li o meu primeiro texto de Virilio: "A luz indireta". É um autor imperdível para entender o mundo atual e a maneira como as relações simbólicas modificam e interferem em nossa vida.

Vim falar de privacidade. Citei Virilio porque me lembrei da discussão que ele faz sobre as câmeras. Se não me engano, a legislação brasileira exige que, se um edifício ou outro espaço usam câmeras de vigilância, eles têm por obrigação notificar as pessoas que circulam pelo lugar sobre a existências daquelas, e por isso vemos plaquinhas simpáticas em que se lê "sorria, você está sendo filmado". As câmeras nos vigiam nos corredores, escadas, halls, elevadores. Escondem-se detras dos espelhos, nas arestas de salas, nos postes e no alto dos edifícios. Mas você já parou pra pensar que outros mecanismos de vigilância também estão em vigor hoje em dia?

Eu ainda não entendo a real dimensão dos satélites, mas me assusta o Google Maps e me assustou ainda mais descobrir o Google Street View, e as ruas aparecendo claras, com seus edifícios, os números desses, os carros, ainda que sejam imagens estáticas, fotografias tomadas há algum tempo. Mas, e quando nos apresentarem imagens em tempo real e que não sejam estáticas? Até que ponto será exposta a nossa intimidade na rede mundial de computadores?

No filme "Rede de mentiras" (Body of lies), de Ridley Scott, o uso de satélites para rastrear as operações de agentes da CIA em territórios do Oriente Médio é como uma imensa câmera que se aproxima e se afasta para ver os detalhes do rosto dos visitantes do nosso condomínio. Não sei até que ponto órgãos como a CIA já fazem uso desse tipo de tecnologia fora de solo norteamericano, mas me parece fascinante e aterrorizante que os mecanismos de vigilância tenham evoluído a tal ponto.

Imagino que a ficção pode e deve se beneficiar das loucuras que já antigiram a técnica e, com isso, construir as suas narrativas. Em outras épocas, os textos literários escritos com tais elementos teriam sabor surrealista ou futurista, e pareceriam impossíveis, não há muito tempo. Imagine um imigrante ilegal que se esconde num edifício com má calefação num subúrbio de Paris. Ele consegue um emprego mal pago de ajudante de cozinha num restaurante na rue Saint Honoré e viaja de metrô por várias estações para ir trabalhar, e outra vez até chegar em casa, no fim do dia. Faz o mesmo trajeto diariamente, encontra as mesmas pessoas nas estações onde toma o metrô e onde desembarca, os mesmos imigrantes mal pagos e explorados pela língua e pela moeda francesas. Ele não sabe, mas diariamente a Polícia de Imigração o vigia pelas câmeras do metrô, e pelas câmeras dos postes, e inclusive pelas câmeras instaladas no edifício em frente ao restaurante onde trabalha. As câmeras sabem tudo dele. Elas o observam, como animais predadores que esperam o momento exato para o ataque. Fica difícil se esconder. Ele pensa que está a salvo, incógnito, camuflado em meio à multidão parisiense que transita pelas estações lotadas até chegar a Villiers-le-Bel, no norte da cidade, à noite. Numa manhã, antes de sair para o trabalho, enquanto toma café com a esposa também imigrante, vê o seu rosto na tevê e seu nome escrito embaixo. Tenta fugir, mas quando se dirige ao quarto para fazer as malas, a Polícia de Imigração invade a sua sala e o leva embora. Ele não sabia, mas as câmeras o acompanhavam desde o dia 13 de junho de três anos antes, quando desembarcou no Charles De Gaulle, com pouca bagagem para não despertar suspeitas, e bem arrumado, mas com discrição. Elas o observaram por três anos, silenciosas e pacientes, como inimigos que esperam o momento de fraqueza ou distração para realizar o ataque certeiro.

Quando começará o ataque? Quando começará a paranoia?



Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Caso do vestido


É o mesmo título do poema de Drummond, mas não se trata de poesia. Um vestido e sua simbologia: o ícone da feminilidade na Moda ganha status ameaçador. Como pode uma simples peça do vestuário feminino desencadear tamanha fúria entre seres humanos civilizados, supostamente detentores de saberes tidos como superiores, e já adultos? Pois foi o que aconteceu no interior de São Paulo.

Mesmo depois de conhecer a Psicanálise, Woodstock e sua liberação sexual, e todas as transformações que viveu o mundo ao longo do século XX, o ser humano ainda não foi capaz de mudar sua relação com o corpo. Está claro que os avanços tecnológicos e científicos não desencadeiam transformações culturais simultâneas a si, ao contrário: os códigos culturais não obedecem o ritmo da técnica e da ciência; caminham no seu próprio ritmo simbólico e constroem relações que se instalam nos subterrâneos dos seres humanos, em lugares governados pelos princípios coletivos traduzidos em códigos sociais, moral, valores, etc.

Mas uma pergunta me persegue: por que um vestido foi capaz de causar reações tão hostis? O que existe de condenável nesse vestido? A cor? O comprimento? A aderência ao corpo? O que existe de condenável em um corpo? E o que existe de condenável em um corpo coberto por um vestido curto?

A ironia sobre o termo civilizado utilizado no começo do texto é óbvia. Creio que nunca chegamos a ser totalmente civilizados e, decididamente, caminhamos em direção à barbárie. Quando me deparo com reações coletivas como a ocorrida na UNIBAN, vejo reações bárbaras se estampando.

A hostilidade dos estudantes era claramente uma violência de gênero, associada ao falso moralismo que apregoa que o comportamento feminino considerado “decente” seria uma moça coberta até os pés, assexuada e opaca. Mas essa mensagem é confusa, pois a sociedade vê veiculado na mídia que a sensualidade é um bem simbólico a ser conquistado por mulheres de todas as idades e meios, e que o corpo é a maneira de alguém estar presente no mundo e conquistar um lugar ao sol. A ideia da beleza e da sensualidade está associada ao sucesso.

Ouvi e li opiniões de gente que, como eu, tentou entender a reação agressiva e descabida do coletivo universitário da UNIBAN. Uma psicanalista entrevistada na Rede Record (perdoe-me a ausência do seu nome, não me lembro!) falou sobre o ocorrido ter sido uma “histeria de massas”. Eu considero que isso seria um risco, pois a histeria no meio social pode levar a extremos muito perigosos, como o linchamento e o massacre. De alguma maneira, esse massacre aconteceu; embora tenha sido verbal, ele foi veemente. Uma jornalista que escreve no site do Observatório da Imprensa (peço igualmente perdão pela ausência do seu nome, pois não salvei o artigo para postar o link aqui), fala da necessidade de se entender a reação dessa moçada.

Li muitas opiniões de populares postadas na Internet sobre o caso em resposta ao vídeo de uma reportagem televisiva. A violência da turma da UNIBAN gerou outras reações violentas que também merecem nossa reflexão sobre a sociedade e nossa juventude. Muitas pessoas referiam-se aos jovens universitários como “gays” (outro tipo de violência de gênero, associada à ideia de que usar a palavra gay seria insultar e desmoralizar os que atacaram e constrangeram a moça em questão), “pobres” (que reflete o ódio de classe, uma maneira de hierarquizar quem estuda na UNIBAN e em outras instituições, em relação ao seu nível sócio-econômico), o reforço à postura machista que rotulou a moça do vestido curto como “vagabunda” (palavras dos que escreveram na postagem). Essas reações revelam a avalanche de preconceitos que estão presentes em nossa sociedade. Claro que também houve posturas diferentes, opiniões que diziam que faltava cidadania, senso crítico e solidariedade em relação a todo o caso.

Não me interessa discutir a intenção da moça ao usar tal peça de roupa, o que me interessa é entender a resposta que o grupo lhe apresentou. Que incômodo foi esse o gerado pelo vestido? O corpo ainda precisa ser coberto pelos véus, sobretudo o corpo feminino? O vestido não protege, mas aprisiona. O vestido é a caixa, a mordaça. O vestido é o cinto de castidade. Ele é a mensagem do que não pode ser tocado. Se aparece descoberto, então o corpo está aberto à violação? Se ele se mostra, é público e está aberto à visitação??...

Entre o jogo do olhar e do esconder, constroi-se o comportamento social de quem está ao redor do corpo em questão, mas o que vemos é que os violadores e sociopatas não precisam de mensagens visuais “insinuantes” para o seu comportamento doentio e sua violência. E o que pensar de um grupo que apresenta um comportamento como o desses enfermos estando dentro de uma instituição de ensino superior? O que está falhando na nossa sociedade?

Temos muitas questões para discutir. Temos muita civilização para conquistar. Porque a barbárie está a um passo daqui, talvez seja preciso apenas adentrar o edifício de alguma universidade brasileira.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Idades

Cada idade com suas idiossincrasias, não é mesmo? Acho que já nasci muito velha. Quando criança, fui precoce demais para muitas coisas, eu me sentia com uns 80 anos aos 12; já para outras, eu protelei o quanto pude. E lhes garanto que minha porção criança está intocada dentro de mim para os momentos em que se fizer necessária. ;)

Sofri preconceito aos 30 anos de idade por me considerarem velha. Convidei uma conhecida para uma reunião de poesia, e ela me perguntou se lá haveria gente da sua idade presente. Há gente que se exclui da convivência plural, por medo, ou por arrogância. Ou pelos dois.

Eu sempre tive amigos de todas as idades, sempre gostei de gente mais velha que eu! Quando eu tinha dez anos, passava as tardes de prosa com a Dona Alice, uma senhora adorável de 80, que era avó de uma grande amiga. Nessa época, Dona Alice já estava doente, e veio a falecer depois de meses de sofrimento. É interessante falar disso agora, pois a sensação que tenho ao falar dela é a de que me preparei para essa perda, e que o fato de saber que ela partiria me faz guardar dela só as lembranças boas, sem ficar pensando no sofrimento. Dona Alice foi a primeira amiga que perdi.

Já sofri muito preconceito por ser jovem, e acho que é esse o tipo mais irritante de preconceito. Outro dia mesmo, numa reunião social, conheci uma figura que me olhava como se eu fosse um livro em branco. E ela foi capaz de conversar comigo do mesmo jeito: o livro em branco lá. Eu confesso que senti preguiça, e fiquei me perguntando se gente assim realmente está interessada em conhecer as pessoas, porque eu acredito que não. O preconceito significa a resistência em ir até o outro e descobrir quem ele é. "É mais seguro ficar aqui no meu mundinho, se eu vou até lá, posso me desfazer das minhas verdades...".

Cada idade com sua beleza e com suas descobertas. Eu só confirmo que, apesar de vez ou outra ter que encarar gente medrosa assim, eu ainda continuo com um gosto grande por encontrar o ser humano. E ver quem ele é de verdade.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Mea culpa

Ando tão longe da poesia, que nem sei se ela vai me perdoar tanto descaso. Mas eu vou tentar.

Domingo, Outubro 04, 2009

Silêncio... Uma das vozes de que mais gosto se calou. Morreu Mercedes Sosa. Descanse em paz, Maestra.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Aprender é ótimo!

Comecei meu curso de modelagem de Moda, iurru!!! Nem preciso dizer o quanto estou feliz. No meu aniversário, a minha querida amiga Rosa havia me dado de presente um livro maravilhoso da editora do SENAC: Desenho técnico de roupa feminina, de Adriana Sampaio Leite e Marta Delgado Velloso. O curso somado ao conteúdo precioso desse livro têm feito muuuito por minha formação como designer de Moda. Não poderia me sentir mais feliz, não mesmo.

Minha biblioteca sobre Moda tem crescido. Os amigos me presenteiam, compro algum título novo sempre que posso, e, assim, vêm chegando até mim títulos como Textiles mexicanos, Fashion Design drawing course, O luxo eterno, Sacs et cabas, Víctimas de la Moda, Fashion Illustration now, entre outros. Nem preciso dizer como os livros me enchem de alegria. E isso é desde sempre. Eu sempre gostei mais de ganhar livros que qualquer outra coisa. Já são 24 os meus livrinhos de Moda, e sinto por eles um amor grandioso!!!

Mas hoje quero mesmo é falar do meu curso de modelagem de Moda. Em breve vou criar peças com minha própria modelagem, com a roupa que gosto de desenhar e que quero continuar customizando. Estou descobrindo a magia do traço, da curva, um esquadro daqui, fita métrica dali, risca, dobra, corta, alfineta, cola, e surgem os moldes, alma do que depois se estampará como roupa, que cobrirá peles e desejos.

Estou muito motivada e acredito mais do que nunca nos meus sonhos. E sei que eles podem me levar aonde quero chegar. E eu quero muito que isso aconteça.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Meu novo livro



Estou apaixonada por um livro. A minha história com ele começou com uma ida ao supermercado. Meu pai havia ido comprar pneus, e eu aproveitei para dar uma passeada pela seção "bazar", onde ficam os livros, filmes e cds. Primeiro bisbilhotei entre os cds, onde encontrei uma cópia de Fargo a módicos R$7,17, o que me fez abraçar o devedê. (Apolo havia me iniciado na filmografia dos irmãos Coen, com uma sessão de No country for old men [Onde os fracos não têm vez], que havíamos comprado numa cidadezinha de Oaxaca, quando estivemos lá no mês de março.) Em seguida, dei uma passada pela banca de livros a R$9,90, havia puros títulos de Paulo Coelho, blergh! Não desisti. Continuei futucando entre as pilhas de livros, e do meio deles surgiu a capa de Noite do Oráculo, de Paul Auster.

Aqui, inauguro um parágrafo especial. Paul Auster é o meu escritor norteamericano favorito. Dele, havia lido No país das últimas coisas, livro que me trouxe uma escrita nova, com temáticas que me interessaram muitíssimo; sempre flertei também com A Trilogia de Nova York, apesar de nunca tê-lo comprado. Encontrar, entre os títulos de Coelho, Noite do Oráculo significou que nem tudo estava perdido entre as distâncias geográficas do meu lindo e amado país. Também me deu a certeza de que ninguém conhecia Paul Auster como se deveria.

O livro fala de um escritor que volta a escrever depois de um longo período em que esteve doente, hospitalizado. Pareceu-me uma Mise en abîme deliciosa, pois leio um Paul Auster que escreve sobre outro escritor, que por sua vez escreve sobre o processo da escrita e da leitura. É como um fractal, cujas partes repetem, com verossimilitude, a figura maior. Amo a metalinguagem quando é bem utilizada. E não esperaria menos de Auster.

Em relação à cara da edição brasileira, a sobrecapa recria a capa do caderno português usado por Sidney Orr, o personagem-escritor de Auster: uma sobrecapa realizada em papel canelado azul, que imita o tecido que recobre o caderno comprado em uma papelaria chinesa. Adorei o aspecto cuidadoso, é como se eu tomasse nas mãos o caderno de Orr e lesse seu manuscrito. A ficção se mistura ao real na forma do livro, e dá prazer ao leitor esse detalhe.


Sábado, Setembro 27, 2008

A Vida imita a Arte

Jazinski - Menina com livro de figuras

Quando eu compro (ou ganho) alguma coisa que tenho vontade de ter há muito tempo, eu me transformo na menininha deste conto de Clarice Lispector, leia-o aqui.

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Veja mais imagens de crianças com livros neste link. É lindo...

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Chega de imprensa medíocre!!! Parte 2

A Revista Veja sempre se supera. É inacreditável como tem a audácia de tentar macular a imagem mesmo daqueles que não estão mais entre nós e cuja memória é respeitada e celebrada nacional e internacionalmente pela sua contribuição histórica e inegável à Educação brasileira e mundial.

Reproduzo, a seguir, a matéria publicada no site do meu sindicato (o sindicato dos professores de Minas Gerais - SINPRO) na qual está a carta da viúva de Paulo Freire, a senhora Ana Maria Araújo Freire. Ela se pronuncia em repúdio à matéria publicada na Revista Veja de 20 de agosto de 2008 que se refere pejorativa e desrespeitosamente ao nobre educador. Você também pode lê-la no seguinte link: http://www.sinprominas.org.br/conteudos/detalhes.aspx?IdCanal=122&IdMateria=612 .

16/09/2008
Viúva de Paulo Freire escreve carta de repúdio à revista Veja

Na semana passada, a viúva do educador Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire, escreveu uma carta de repúdio à revista Veja, em decorrência de reportagem publicada na edição de 20 de agosto, intitulada “O que estão ensinando a ele?”. De autoria das jornalistas Monica Weinberg e Camila Pereira, a reportagem foi baseada em uma pesquisa sobre a qualidade do ensino no Brasil. Em um determinado trecho da reportagem, lê-se:

"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".

Diante disso, Ana Maria Araújo Freire escreveu a seguinte carta de repúdio:

"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo deste.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoa pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorado com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja os dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire

Fonte: Blog do Azenha


In: http://www.sinprominas.org.br/conteudos/detalhes.aspx?IdCanal=122&IdMateria=612 . Acesso: 19 de setembro de 2008.






Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Segredinho contado ao pé do ouvido

Mamãe, ele conhece o céu
o mistério das nebulosas
o não-compreensível das estrelas,
[que já estão mortas enquanto as contamos.

Ele chama as estrelas cadentes
de meteoritos.

Ele sabe calcular a distância
da Terra a Saturno
E ele é capaz de explicar o caos.

Diz que o caos é formado por
seqüências intercaladas
de ordem e desordem
Do mesmo modo que a Vida.

Ele me dá lições sobre o tempo:
com ele eu vivo os sessenta minutos
de uma única hora
como se fossem
cento e vinte,
intensamente.

Mamãe,
ele sabe como chegar
até meu
fundo.

Ele tem os mapas.

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Ecos do vil metal

Até onde você seria capaz de ir por dinheiro?

Seria capaz de se trair?

Seria capaz de se perder?

Seria capaz?...

Até onde?

Sexta-feira, Agosto 29, 2008




Sábado, Agosto 16, 2008

Um pouco da poesia da América Central

El alma que no amaina


"Asomada a mi garganta

contemplo la selva de mi interioridad

azotada de viento,

erosionada por múltiples inundaciones.


Dicen que el tiempo lima las protuberancias del alma,

igual que el agua de los ríos torna en suave mejilla

el contorno de las piedras.

Que la memoria aprende a ojos cerrados el inmutable perfil de las riberas

y un día de tantos se llega al final del asombro,

a la intuición certera de lo impredecible.


Pero yo no parezco encontrar certidumbres en la madurez.

Cuando mis ojos penetran en el follaje del pecho

donde se agazapa mi corazón

las veredas holladas una y otra vez por mis pasos

son como el pasto lleno de tigres de Rousseau.

Humedades, estaciones imprevistas

atizan la floración de selvas inmediatas

y árboles sin experiencia

ingenuos escaladores del cielo

batallan rama a rama por un claro

desde donde asomarse

al lugar que vislumbraron

cuando soñaban germinar.


No presiento en mí el instinto migratorio

apartándome de estos bosques fecundos

donde las experiencias se acumulan cual trozas

olorosas a detritus;

donde la mano del huracán me abate con palmeras

y no hay otra manera de enfrentar a los insectos

que la desnudez.


De tiempo en tiempo pienso en terrazas frente al mar

donde sentarme a envejecer

pienso en la visión de las copas de los árboles,

percibida en el silencio.

Pero los tucanes y oropéndolas

el jaguar y el ocelote

lo primitivo y salvaje que ha quedado sin revelar

esgrime su irresistible tentación tras la tersa ilusión del horizonte.


Viajera en pos de lo profundo e ignoto

Mujer con el alma agujereada por los colibríes

desecho la memoria del desván donde guardé escudos y encantamientos

para proteger esta piel vulnerable al rasguño

y abrazo vociferante y temblando

el huracán, el tornado, la tormenta.


Desde la espesura de mis pulmones

reclamo sin arrepentimientos

la carne viva, las llagas

el ojo sin miedo

de la juventud."



GIOCONDA BELLI

In: http://www.giocondabelli.com/poesia/el%20alma%20que%20no%20amaina.htm

Quarta-feira, Agosto 13, 2008

Ironia

Tantas redes de relacionamento virtual e ninguém para trocar a mangueira do meu botijão de gás para mim!...

Quinta-feira, Julho 24, 2008

Pois então...

Fonte da imagem: tempsreel.nouvelobs.com/file/397749.jpg


Andei sumida, e já é julho. Sinto que fica um abismo em mim quando não escrevo por muito tempo. E isso é porque sou feita de palavras. Sim, a minha matéria são palavras como átomos, eu tenho DNA verbal e minhas células são sílabas de muitas cores e formas. E pensar que fico, às vezes, tanto tempo em silêncio... Hoje eu vim refletir um pouco. A Poesia tem voltado, timidamente, a mim. Ela fica me espiando por detrás de umas colunas (que não são gregas!) e quando eu me volto, ela se esconde. Mas, em breve, eu acho que consigo capturá-la outra vez. Uns versos me vêm quando estou em atitude contemplativa, olhando o nada que alimenta filósofos e sensíveis. E a mim. Esse nada pode embotar as coisas, ou torná-las visíveis e belas...

Hoje, eu quero falar de algo que li no jornal mexicano La Jornada. Trata-se de uma carta
escrita por intelectuais e escritores de vários países do continente americano, e dirigida aos governantes e parlamentos da Europa em resposta à lei contra imigrantes. Achei bacana, e gostaria de transcrever o artigo na íntegra. Quem preferir, pode acessar a máteria no site do jornal e lê-la por lá. Fica uma reflexão, para mim: quando, há alguns meses, escrevi sobre a expulsão de alguns brasileiros no Aeroporto de Barajas, em Madri, e me indignou a forma como foram tratados os meus compatriotas, eu temia um movimento xenofóbico em cadeia que -vejo - se estava gestando. Há muitas discussões que podemos fazer sobre a crise econômica na comunidade européia, bem como a saturação dos mercados de trabalho por lá. O que não podemos aceitar é que dêem aos de fora daquela comunidade o tratamento que se prevê com a nova lei. Transcrevo, abaixo, o artigo do periódico mexicano:

jueves 24 de julio de 2008 Política Intelectuales, activistas y políticos protestan por la “cacería de migrantes” en Europa

■ Quienes promovieron la nueva ley en la materia desconocen su deuda con las Américas y África

Intelectuales, activistas y políticos protestan por la “cacería de migrantes” en Europa

Hermann Bellinghausen

En una carta dirigida a los gobiernos y los parlamentos de Europa, un grupo de destacados intelectuales, activistas y políticos del continente americano, reivindicando su origen europeo, manifestaron su rechazo a las nuevas leyes de aquel continente contra los migrantes. Quienes promovieron esta legislación padecen una “amnesia nada inocente” y desconocen la deuda que los países del llamado Viejo Mundo tienen con las Américas y África.

Escrito en castellano, portugués, francés, italiano, inglés y alemán, firman el manifiesto, entre otros, Eduardo Galeano, Noam Chomsky, Pablo González Casanova, el presidente electo de Paraguay, Fernando Lugo, el subcomandante insurgente Marcos, Osvaldo Bayer, Augusto Boal, Aleida Guevara, Ernesto Cardenal, Mirko Lauer, Gioconda Belli y Sergio Ramírez. Este es el texto íntegro:

“Señores gobernantes y parlamentos de Europa: algunos de nuestros antepasados, pocos, muchos o todos, vinieron de Europa. El mundo entero recibió con generosidad a los trabajadores de la Europa migrante. Ahora, una nueva ley europea, dictada por la naciente crisis económica, castiga como crimen la libre circulación de las personas, que es un derecho consagrado por la legislación internacional desde hace ya unos cuantos años.

“Esto nada tiene de raro, porque desde siempre los trabajadores extranjeros son los chivos expiatorios de las crisis de un sistema que los usa mientras los necesita y luego los arroja al tarro de la basura. Nada tiene de raro, pero mucho tiene de infame.

“La amnesia, nada inocente, impide que Europa recuerde que no sería Europa sin la mano de obra barata venida de afuera y sin los servicios que el mundo entero le ha prestado; Europa no sería Europa sin la matanza de los indígenas de las Américas y sin la esclavitud de los hijos del África, por poner sólo un par de ejemplos de esos olvidos.

“Europa debería pedir perdón al mundo, o por lo menos darle las gracias, en lugar de consagrar por ley la cacería y el castigo de los trabajadores que a su suelo llegan corridos por el hambre y las guerras que los amos del mundo les regalan”.

Firman: Adolfo Pérez Esquivel, Atilio Boron, Hebe Bonafini, Osvaldo Bayer, Martha Pelloni, Diana Maffía, Rally Barrionuevo y Claudia Korol (Argentina). Eduardo Paz y Humberto Claure Quezada (Bolivia). Augusto Boal, Afranio Mendes Catani, Candido Grzyboswki, Chico Withaker, Emilia Vioti da Costa, Elias de Sá Lima, Gaudêncio Frigotto, Heloisa Fernandes, Jean Pierre Leroy, Jean Marc Von der Weid, Joao Pedro Stedile, Mario Maestri, Pedro Casaldaliga, Renée France de Carvalho, Rita Laura Segato, Vânia Bambirra y Vito Gianotti (Brasil).

Naomi Klein, Pat Mooney y Michael A. Lebowitz (Canadá). Cosme Caracciolo, Luis Conejeros, Marco Enríquez-Ominami, Manuel Cabieses, Marta Harnecker, Manuel Holzapfel, Ernesto Carmona, Paul Walder, Pedro Lemebel, Flora Martínez, Alberto Espinoza y Tomas Hirsch (Chile).

Aleida Guevarra y Joel Suárez Rodes (Cuba). Alberto Acosta, Carolina Portaluppi, Juan Meriguet Martínez, Pavel Égüez, Hanne Holst, Luigi Stornaiolo, Osvaldo León y Verónica León-Burch (Ecuador). Saúl Landau, Norman Solomon, Susanna Hecht, Richard Levins, Noam Chomsky, Peter Rosset, Fernando Coronil, Mario Montalbetti y John Vandermeer (Estados Unidos).

Jean Casimir, Camille Chammers (Haití). subcomandante insurgente Marcos, Ana Esther Ceceña, Felipe Íñiguez Pérez, María de Jesús González Galaviz, Pablo González Casanova, Luis Hernández Navarro, Beatriz Aurora, Víctor Quintana, Raquel Sosa, Rodolfo Stavenhagen y Silvia Ribeiro (México).

Carlos Mejía Godoy, Ernesto Cardenal, Gioconda Belli, Luis Enrique Mejía Godoy, Mónica Baltodano, Dora María Téllez y Sergio Ramírez Mercado (Nicaragua). Fernando Lugo, Marcial Gilberto Congon y Ricardo Canesse (Paraguay). Aníbal Quijano, Carmen Pimentel, Carmen Lora, Mirko Lauer y Rolando Ames (Perú). Eduardo Galeano y Antonio Elías (Uruguay). Maximilien Arvelaiz (Venezuela).

Aproveito, também, para sugerir os links de algumas leituras que circularam na imprensa de boa qualidade sobre o tema nos dois últimos meses:

"Itália e Espanha caçam os 'sem-papéis'."

"Itália: Berlusconi criminaliza imigração ilegal no país"

"Partido espanhol compara lei de imigração da UE ao nazismo"

"Milhares de ciganos protestam em Roma contra xenofobia"

"Brasil de Fato: xenofobia avança na Ásia, Europa e África"

"Milhares protestam em Paris contra nova lei de imigração da UE"

"Evo Morales: A vergonha da política migratória européia"

"Pobreza aumenta na União Européia"

"A União Européia e o 'delito de imigração'"

"Franceses sairão às ruas contra lei anti-imigrantes"

"Brasil endurece discurso contra a xenofobia na Europa"

"Emir Sader: imigrantes e a reação à 'Diretiva da Vergonha'"

"Organizações denunciam caráter neoliberal de Tratado europeu"

"França apresenta 'Pacto de Imigração' à União Européia"

"Berlusconi promove 'caça' a ciganos em toda a Itália"

"Itália: Berlusconi criminaliza imigração ilegal no país"

"Itália: juristas receiam ditadura sob Berlusconi"

Boa leitura a todos e até o próximo dedim de prosa! Bisou. :)

Quinta-feira, Junho 12, 2008

Break up

Uma palavra.

Que desvende os silêncios.

Que faça chover sobre as erosões.

Que irrigue os desertos.

Uma palavra-dicionário.

Uma palavra-bote.

Uma palavra-consolo.

Uma palavra-água.

Uma palavra-rocha.

Uma palavra-alegria.

Uma palavra-riso.

Uma palavra-multidão.

Uma palavra-festa.

Uma palavra-pólvora.

Sexta-feira, Maio 09, 2008

Lugares como mujer

Foto sacada de aquí.

Ser mujer, joven, guapa e independiente son elementos aún incompatibles en mi país. La verdad quise escribir en nuestra cultura patriarcal, pues entonces lo reescribo: Ser mujer, joven, guapa e independiente son elementos aún incompatibles en nuestra cultura patriarcal. Últimamente he pensado cada día que mi lugar también tiene que ser como militante feminista. Si yo soy una de las que tienen lecturas suficientes sobre el tema seguramente tengo que tomar partido en ese movimiento dialéctico de desconstruir el machismo - ¡no lo masculino! -.


La mujer es todavía un signo en observación, elaboración y comprensión por la cultura. Nos miran detenidamente y muy curiosos de lo que ven. Sin embargo, nos ven con lentes astigmáticas, es decir, con lentes distorsionadas y que distorsionan: a una mujer siempre la ven como doble - la que parece ser y la que de hecho es. Todavía fantasean con el binomio mujer libre/promíscua; es un esteriotipo que no se ha di(re)suelto en nuestro mundo tan cristalizado.


Lastimadamente somos vistas bajo una mirada monolítica y lineal, y peor todavía: nos quieren hacer creer - y la mayoría de las veces lo logran - que la lucha feminista por respeto e igualdad y también por el lugar justo que nos toca en la Historia es una lucha anacrónica. Hablo de nosotras porque está claro que es una realidad que dice respeto a la gran mayoría de las mujeres. Y seguiré hablando de nosotras, y por nosotras, porque a partir de hoy levantaré la bandera feminista lo más alto que pueda. Y lo hago muy consciente de mi condición de intelectual y a la vez de objeto de análisis, observación y elaboración por la dicha cultura.



Estamos en siglo XXI. Hace falta poner de relieve que la evolución tecnológica y la misma "evolución" del capitalismo no fueron capaces de disolver los conflictos que la presencia de la mujer en las esferas públicas, antes espacio solamente masculino, representa aún un problema, un malestar que se intenta enfrentar con las mismas prácticas de antaño, tales como vigilancia, difamación, persecución, ataques, disputas de varios tipos.



No es una cuestión sencilla tampoco pacífica que las mujeres se reconozcan y sean reconocidas como ciudadanas. De pronto me doy cuenta de que todas las luchas a lo largo de la Historia por derechos humanos son una farsa si pensamos que en múltiples acciones se intenta desconstruir el lugar de la mujer como profesionales, como madres, como seres libres que pueden ser todo esto a la vez, sin tener que fragmentarse para ocupar un lugar en el mundo.



Empecé mi texto hablando de lo difícil que es ser mujer, joven, guapa e independiente en mi país. Pues es complicado serlo porque veo que a mí, por ejemplo, me fragmentan como sujeto: si soy joven, no puedo ser competente; si soy guapa, es incompatible ser lista; si soy lista no puedo tener el amor de un hombre; si soy independiente, seguro es porque llegué a ese lugar gracias al a(im)porte de algún hombre. O sea: las mujeres nos afirmamos gracias al signo masculino. ¡Caray! Es impresionante que todavían nos vean así: ya tenía lo suficiente con ver mi sexualidad afirmada a partir del falo masculino, con la falta lacaniana que me acompaña como mujer. ¿Ya no basta que nos vean como la costilla de Adán?



Es importante traer a la luz la discusión sobre qué lugar las mujeres queremos ocupar en el mundo. Me agotan los prejuicios que veo a diario, sea en los
massmedia, sea en la calle, en las conversaciones de amigos, o en las prácticas cotidianas de diversos niveles y sectores. Lo que me pone triste es que muchas mujeres aceptan los lugares que nos fueron asignados como seguros y estables. Sí, quizás sea estable estar en lugares que son ocupados por mujeres desde hace siglos. Lo difícil es conquistar otros, es buscar conocerse más a sí misma y encontrar la esencia de sí y de sus sueños. Saber lo que queremos verdaderamente cuesta trabajo. Y puede ser doloroso derribar los castillos.

Quarta-feira, Maio 07, 2008

O mundo não vale o mundo, como já diria meu caro Carlos. Deve ser o inferno astral, vai passar.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

O Surrealismo no meu condomínio ou O Déspota esclarecido


Até que ponto devemos aceitar as regras que nos são impostas, sobretudo quando elas são mecanismos de vigilância ao estilo foucaultiano do "vigiar e punir"? Refiro-me ao meu lar, infelizmente. Moro num condomínio que é ícone do modernismo brasileiro e adorado pelos arquitetos de todo o mundo e por todos os que apreciam a boa arquitetura. Esse ícone do modernismo é um paradoxo, cuja convenção interna está pautada no moralismo obsoleto de algum século findo.

Foucault foi quem melhor definiu, classificou e analisou os mecanismos de vigilância criados pela sociedade para observar e enquadrar a sexualidade humana. As práticas dessa vigilância são várias e acompanham a intimidade dos indivíduos com lentes de aumento. Não bastassem as que aponta Foucault, deparei-me com uma nova: a convenção interna do condomínio onde resido.

Entre as regras que são elencadas nesse documento, está a "declaração de convivência marital" (sim, é isso mesmo que você está lendo), cujo sentido existencial está determinado pela tentativa de "moralização do condomínio", segundo me foi informado por funcionários da administração. A declaração marital é uma exigência para os casais que decidam viver no condomínio, devendo ser assinada pelo casal diante da ausência da certidão de casamento. Sim, deve-se apresentar certidão de casamento se vier morar aqui; se não for casado diante da Lei, que se assine a tal "declaração de convivência marital". Tudo isso é exigido para que os moradores em questão tenham livre acesso ao edifício, a qualquer hora do dia ou da noite, sem necessidade de apresentar documentação.

Eu já brinquei, em outra postagem aqui no Torre de capim lilás, na qual comparei meu edifício ao
1984, de George Orwell. Não é exagerada a analogia. A "declaração de convivência marital" é como uma câmera sem lentes, que vigia a sexualidade alheia, e observa, do seu posto estático e cego, com quem cada morador dorme. Como na obra de Orwell, os abraços e as carícias dos moradores são vigiados vinte e quatro horas diárias. Também aqui, não é permitido acariciar o outro sem o consentimento do Grande Irmão. Estaria o amor - além do sexo - sendo censurado?

Queria lembrar um princípio constitucional que é desrespeitado com essa exigência, o qual afirma que o "lar é asilo inviolável". Tenho desrespeitada minha intimidade, meus direitos como cidadã de ter privacidade em minha própria casa, ao ter que dar esclarecimentos sobre minha vida íntima a pessoas que não conheço e às quais não teria que participar nada. Vejo, nessa prática, uma arbitrariedade que se justifica em nome da "moralização" do condomínio, uma prática que revela que a administração do condomínio se excede em suas atribuições enquanto administradores e síndica, e cria, à revelia da constituição brasileira, leis próprias muito invasivas.

Por isso mesmo fiz, na postagem que havia escrito antes, a analogia do meu condomínio com um país: o controle de migração ("vistos de turistas" para as visitas que se hospedam comigo; "visto permanente" para os que vêm morar aqui); a imprensa a serviço do governo (sim, o condomínio publica mensalmente seu órgão de imprensa, a serviço dos interesses do governo local, un jornaleco...); a constituição própria (dispensa mais apresentações); a guarda pública (e é sempre tão mal-preparada, meu Deus!!...); o parlamento (que sempre vota segundo os interesses governistas, e passa o rodo na oposição); o circo (festas temáticas em algumas épocas do ano); e, claro, a Déspota esclarecida.

O que aconteceu, e que me causa profunda vergonha, é que decidi assinar a tal declaração de convivência marital. Meu amado chega em poucos dias e hoje foi a segunda vez que fui à administração para inclui-lo como morador. Da primeira vez, me recusei a assinar a bendita declaração, o que fez com que eles recusassem a minha solicitação de sua inclusão como morador. Dessa vez fui disposta a assinar a famigerada carta, mas não sem fazer um discurso recheado de argumentos indignados, como cidadã, como militante feminista, como leitora de Foucault e de Marx, como pessoa livre. Hoje, com certeza, os que trabalham naquele lugar refletirão sobre suas práticas, e saberão que alguns dos que vivem aqui se indignam com suas práticas.

O que posso dizer mais? É surreal ter que passar por tudo isso para viver num edifício. Meu namorado brinca, dizendo que o meu edifício é o único no mundo que pede passaporte, e ele está certo. Trata-se de um espaço que a ficção teria inventado, se ele já não existisse. Ou que pode ter sido inventado por ela, num desses gestos em que "a vida imita a arte".






Quarta-feira, Abril 30, 2008

Chega de Imprensa medíocre!!!

Lá embaixo eu citei os lindos versos de Adélia Prado para falar do que eu sinto. Acho mesmo que esses versos são um pedaço de mim, uma parte do que eu sou. Eu sou gauche, como Drummond, como Adélia, como Torquato Neto, como Chico. Eu me dou conta de que grande parte das minhas escolhas nessa vida é gauche também. É só me pegar distraída e lá estou eu, automaticamente, fazendo coisas gauche, escolhas gauche. Eu sou comunista, feminista, sou escritora e poeta (sim, o poeta foi expulso da pólis grega há muito tempo...), meu time não ganha campeonatos nacionais. A sensação que tenho é a de que caminho na contra-mão do mundo em que vivo: um mundo capitalista selvagem, de ordem patriarcal instituída (em detrimento de outras), de valores também capitalistas e patriarcais, de gente que execra os poetas e as pessoas que pensam que outro mundo seria melhor.
Não estou tecendo uma pinta de "coitadinha de mim"! Estou apenas criando um pano de fundo para o que quero realmente falar. E o que eu quero escrever hoje tem a ver com o mundo e como ele anda organizado. Por sinal, anda uma merda. Tenho detestado, odiado, abominado, se eu pudesse eu fazia um exorcismo da Imprensa brasileira!!! Já imaginaram se eu realmente houvesse seguido meus planos de adolescente e fosse hoje jornalista?? :S Provavelmente, seria
gauche mais uma vez: jornalista gauche. Tenho tido nojo da conduta da mídia. É detestável a pobreza dos nossos meios de comunicação, e pior: dá asco a maneira como eles nos tratam, a nós, leitores-consumidores das porcarias que eles publicam, sejam na televisão, sejam na imprensa escrita. Tudo começou com a morte dessa menininha. Eu já vinha há muito tempo de saco cheio absoluto com a tevê, com os jornais e algumas revistas - felizmente, não incluo nas minhas críticas destrutivas alguns setores da Imprensa que realmente respeito muito e que tratam o leitor-cidadão como ele merece -. Bom, tudo começou com a morte da menininha. O Carlos Viana (sujeito que respeito muito, e que é responsável por alguns veículos da imprensa de Minas) disse algo de que gostei, numa entrevista na Rede Minas: comparou a cobertura do caso Isabela Nardoni a uma telenovela, cujos capítulos vão sendo anunciados a cada momento e acompanhados com furor pelas pessoas. É desprezível que nos julguem tão mal. É medíocre que nos subestimem e façam, a cada 10 minutos, bombardeios televisivos com os flashes dos "últimos acontecimentos do caso"... Fazem muito bem os que desligam a tevê, os que se recusam a entrar nessa dança estúpida. Esse sensacionalismo é um fragmento do cosmos em que vivemos hoje e de como ele está estruturado. Quando foi que começamos a ser tão superficiais, tão medíocres e levianos? Sim, é leviano o que se vê na imprensa. E é igualmente leviana a absorção, a permeabilidade da imensa maioria da população ao que ela publica.

Ainda bem que não insisti no jornalismo. Provavelmente eu seria mais uma entre os que são obrigados a fazer coberturas sensacionalistas e burras, a produzir matérias e reportagens que não cumprem papéis sociais relevantes. É muito preciso que a sociedade comece a questionar a ética na Imprensa, que se comece a questionar o papel do jornalista como um compromisso político, social, cultural, histórico. Chega de imprensa medíocre, dá náuseas ligar a tevê, abrir a maioria dos jornais, ler algo na internet. Faço questão, inclusive, de publicar uma lista aqui na Torre de capim lilás dos jornais e páginas que considero sérios e que leio com freqüência. Pois é preciso "dar a César o que é de César", e separar os que fazem um trabalho de respeito ao cidadão-leitor daqueles que, definitivamente, não o fazem!

Era isso o que eu tinha pra dizer. Que se juntem à minha voz a dos gauches!

Eu sou assim...

COM LICENÇA POÉTICA
Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

In Adélia Prado, Poesia Reunida
Siciliano, São Paulo, 1991

Domingo, Abril 27, 2008

Apenas uma vez... e outra vez... e mais outra...

Cena de Once.

“Não fiz ‘Once’ por causa de prêmios, fiz para as pessoas se emocionarem. Todo o resto é besteira”, afirma Hansard.

Hoje, vi pela terceira vez Once (Apenas uma vez), o filme que foi premiado com o Oscar de melhor canção em 2008. E não foi o único prêmio com o qual essa película foi agraciada. Em uma palavra: lindo. Adorei, para começar, algumas idéias simples, tais como: ele aperece nos créditos como GUY; ela, GIRL. E não me dei conta disso até ler os créditos ao final da segunda ida ao cinema. Eles não têm nomes, são um homem e uma mulher que se encontram. E, de repente, o encontro entre dois seres humanos é mais importante que a formalidade de termos nomes, profissões, estados civis registrados em cartórios, histórias anteriores. O encontro se dá da maneira mais ex(in)tensa cabível nessa palavra. E o cartaz do filme nos pergunta: "How often do you find the right person?".

O encontro acontece nas ruas de Dublin, no lugar público onde as pessoas circulam a caminho de diversos lugares. Ele oferece música aos que passam; ela, flores. "Do you want flowers?" é a pergunta que ela faz aos transeuntes. Ele canta, toca seu violão, libera pela voz o que lhe vai na alma.
Durante uma semana eles se procuram pelas ruas de Dublin, conversam, se conhecem, compõem.

Eu não conhecia Glen Hansard nem Marketa Iglova, mas são uma surpresa como músicos. E também como atores. Ele é irlandês e líder do grupo
The Frames. Ela é multi-instrumentista, cantora e compositora, e nasceu na República Tcheca. Em 2006, gravaram juntos o primeiro álbum solo da carreira de Hansard.

Gosto da câmera na mão, das cenas sensíveis, dos atores desconhecidos - talvez imigrantes -. O filme traz uma Dublin melancólica, mas fala de coisas belas como sonhos, encontros verdadeiros, solidariedade, sincronicidade.

Uma das cenas mais bonitas (das muitas que me tocaram) é quando eles - Guy e Girl - vão almoçar e a câmera registra o reflexo da rua no vidro do restaurante-café onde eles estão. Sobre os seus rostos se inscrevem os carros e pessoas que passam fora do restaurante... É belíssimo. Foi uma das cenas que me proporcionaram intenso prazer estético.

A música do filme é maravilhosa, os que não são muito afeitos aos filmes musicais imaginarão que é cansativo ver o desenrolar de composição, ensaios, gravações durante os 100 minutos de fita, mas tudo isso se apresenta de maneira tão natural e fluida que é prazeroso acompanhar essa trajetória. O encontro de Guy e Girl não seria, então, apenas o possível encontro do homem e da mulher, mas o encontro - verdadeiro, intenso, indelével - dos dois músicos que constróem juntos um disco, um sonho.


Um fato bacana é que o diretor do filme é o baixista da banda de Hansard, e ele também assina o roteiro, que, dizem, tem aspectos autobiográficos. Outro ponto de contato entre realidade e ficção confirma a máxima de que "a Vida imita a Arte": "rolou" tanta química entre os dois atores, que eles começaram a namorar durante as filmagens, e essa química fica visível aos olhos do público. Torço pelo romance real, pois na ficção ele não decola...
;)

Quarta-feira, Abril 23, 2008

O zelo

Ele é um dos temas preferidos da ficção e sobre seus enredos se produziram obras fantásticas, personagens densos e perenes. Ele é o ciúme. E para lançar uma luz sobre a discussão quero indicar um texto bacaninha e de leitura fácil para entender mais de perto o tema. Dele, trago um fragmento que ajuda a criar literatura:

“Ninguém completa plenamente o outro. Tem que se aprender a lidar com essa falta e tentar desenvolver as características que julgam importantes para seu relacionamento e que estão, possivelmente, latentes no outro. A pressão social para o casamento e para a reprodução e/ou a carência afetiva conduzem as pessoas a uma convivência a dois para a qual, nem sempre, estão preparadas. Nessa perspectiva, quero chamar a atenção para um tipo facilmente identificável nesta realidade, que quase sempre é o pivô dos dramas de ciúme. É tipo homem inseguro que, apoiado pela cultura machista de direito irrestrito a esse gênero, procura se auto-afirmar se lançando em conquistas. Mesmo acompanhado, se insinua para outras mulheres, transformando, assim, seu sentimento de inadequação em ações perversas, grosseiras ou sutis que mina, em contrapartida, a autoconfiança da parceira.

Para este sujeito a ‘crise de ciúme’ da mulher somente aparentemente o incomoda, pois funciona como um termômetro para que ele auto-avalie o quanto é ‘querido’ e ‘desejável’. Uma coisa é admirar despretensiosamente os atributos sejam físico, intelectual ou espiritual de uma pessoa; uma outra é deseja-la e comunicar isso através de palavras ou, o que é pior nesse clima de produção de ciúme, com sinais ou expressões não verbais do tipo ‘olhar de alcova’. Esse indivíduo é um expert nessa modalidade, uma vez que os indícios dos lampejos libidinosos que ele emite são instantâneos e subjetivos. Em caso de protesto, pode se defender indagando: ‘Eu falei ou fiz alguma coisa!?’. E a parceira fica como ciumenta descabida, cuja reação serviu-lhe apenas para denunciar sua ‘insegurança’.

Esse desrespeito a conta-gota, quase sempre introjetado como mágoa, em breve será o ácido corrosivo da sua auto-estima. Esse tipo deixa implícita a mensagem de que é o homem, ou melhor, o macho, e que deseja as demais mulheres. Enfim, de que sua parceira não o preenche e que nem é tão especial em sua vida. A submissão, o medo da violência física faz com que a mulher não reaja a essas perdas. O condicionamento em mostrar fidelidade, eu diria canina, faz com que a mulher abra espaço para esse jogo.”

Silva, Valdeci Gonçalves da. Os feitos e efeitos colaterais do ciúme. In: http://www.algosobre.com.br/comportamento/. Acesso: 23 de abril de 2008.


Sábado, Abril 19, 2008

Carta de amor mientras no vuelas hacia mí.



Amado,

Hoy me siento como una chavita de tres años de edad. Mi objeto amoroso está lejos y me resiento de esa distancia, olvido su rostro para no llorar, por lo mucho que lo extraño. Yo lo extraño porque no tengo sus manos para jugar conmigo, no tengo su abrazo, ni su piel dulce y clara. Soy una chavita de tres años que no quiere la muñeca, que ha dejado de jugar porque nada tiene gracia sin su objeto amoroso. Escucho su voz en mis recuerdos, lo deseo cerca mío y sueño su sonrisa, sus besitos jugosos, su calor tan bueno.

Hoy soy esa chavita y te amo.




(Foto sacada del sitio nanda3k.weblogger.com.br/img/menininha.jpg)
O Movimento por uma casa com quintal agora conta com uma poderosa vertente, que - acho - ganhará mais força e acabará se sobrepondo a este, pelo menos por algum tempo mais: o movimento por um apartamento com varanda, ou, quem sabe?, com terraço. Há uma quantidade razoável de apês mais antigos com terraço, uma área ao ar livre que, mesmo com poucos metros quadrados, é um paliativo para a ausência do chão de uma casa com quintal. É difícil viver em casas numa grande cidade; um apartamento ainda é a melhor solução para quem precisa contar com mais segurança. Quem sabe, quem sabe?... :)
Foto retirada daqui.

QUERO

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.


Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.


- Carlos Drummond de Andrade -
(As impurezas do branco. Rio: José Olympio, 1974)

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Pílulas dessa sexta-feira

A delicadeza e a generosidade são sentimentos e atitudes que sempre me tocarão, sempre.

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Descobri que o glúten me faz mal. Muito mal.

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Dei um tempo de cinema francês: andamos, os dois, muito deprimidos.

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Ou estou muito de saco cheio da imprensa, ou o caso da menina que caiu da janela teve mais protagonismo na mídia que a outra menina que também caiu da janela; mas não era de classe média, era pobre.

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Doktor Freud ensina nas entrelinhas dos atos falhos.

Segunda-feira, Abril 07, 2008

Arco-íris na sala

A minha estante antes...

Para ser sincera, eu não dava muita atenção a lombadas de livros: o que eu queria era que estivessem em bom estado, acho feio lombada destruída, faltando um pedaço. Mas sempre gostei muito das capas, sobretudo as que têm uma preocupação estética maior, essas que fazem com que a gente deseje ler o livro, tê-lo. Na Bienal de Design em 2004, lá em São Paulo, descobri que as capas dos livros de Hilda Hilst pela editora Globo haviam ganhado prêmios de Design! Elas são mesmo lindas!...

O fato é que meu olhar é outro já há alguns anos. Cada dia sou mais da Estética, e o visual tem ganhado mais espaço em mim. Prova disso é que transformei minha estante de livros. Inspirada na arrumação dos livros da minha amiga gaúcha Danielle Sinhorelli, criei uma seqüência arco-íris para os meus livrinhos. Desfiz a lógica "área de conhecimento" e organizei-os por cores, na seqüência das cores do arco-íris. Assim, eu o trouxe para minha sala, enquanto não tenho uma casa com quintal para vê-lo em dias de chuva com sol.

A seguir vocês conferem as fotos do meu pedacinho particular de céu e observem como a minha estante se tornou absolutamente comestível, dá até água na boca olhar para ela agora... Bisou!

















O Movimento ainda está de pé!

O Movimento é ele mesmo: por uma casa com quintal! Estou desejando tanto isso que acho que vai acabar acontecendo. Já joguei no plano astral esse desejo, e já o apregoei a vários amigos... Agora vou começar a minha listinha dos bairros onde gostaria de morar. Aceito sugestões, dicas de imóveis, comentários (im)pertinentes, adendos e delírios. Podem mandar que leio, analiso, sonho.

Minha lista começa assim:
  • Santa Teresa
  • Santo Antônio
  • São Lucas
  • Serra
  • Floresta
  • talvez Pampulha...
É um barato que tudo em BH sejam nomes de santos. Então já sabem: minhas moradas têm já nomes de santo.

Domingo, Abril 06, 2008

A paz em suas mãos


O filme começa. Em uma tomada aérea é como Sam Garbarsky nos apresenta o cenário da nossa história: a câmera se aproxima do subúrbio inglês onde mora nossa Maggie. O nosso olhar se aproxima do mundo provinciano, mexiriqueiro, ensimesmado, doloroso e frágil de Maggie, sua família, seus vizinhos. Somos conduzidos pelas ruas e casas dessa gente, entramos em sua intimidade, descobrimos seus segredos, seus preconceitos, suas mentiras. Todos temos nossos segredos; o de Maggie é: ela vai se tornar Irina Palm. É inverno na Inglaterra. Paisagens cinzentas, como as almas da gente que circula no filme, gente cuja vida está em suspenso, entre a vida e a morte de um pequeno, entre as solidões de pessoas que pertencem à mesma família mas não se tocam, aos que buscam o prazer fugaz e solitário das cabines do Sex World.

Depois que o neto adoece e precisa viajar para realizar um tratamento médico na Austrália, a viúva Maggie começa a buscar empréstimo bancário para ajudar o filho e a nora; vendo todos os pedidos de empréstimo negados, resta-lhe buscar trabalho, o que não é tarefa fácil para uma mulher sem formação acadêmica e na casa dos cinqüenta anos. O único lugar onde lhe oferecem essa oportunidade é um sex club chamado Sex World, nome emblemático para a nova vida que assumirá a nossa heroína.

Detenho-me, por alguns momentos, a apreciar a escolha dos nomes dos personagens. É emblemática, e muito bem-feita, diria até que muito delicada essa escolha. Maggie é diminutivo de Margaret, nome de origem grega que significa pérola. Maggie é, de fato, como uma pérola, protegida em sua concha, "desinteressante" por fora (como a definiria sua vizinha e rival), mas armazenada caprichosamente pelo destino em um lugar de onde será retirada, majestosamente, um dia. Mikki, dono do Sex World e patrão de Maggie, é um nome que vem do hebraico e significa Quem é como Deus?. O nome de Mikki é como um versículo como os dos salmos bíblicos, ou os textos do Velho Testamento: ele é o que controla a vida das pessoas, pois ele é quem oferece o prazer.

Quando Maggie, nossa pérola, adentra a Sex World, o mundo do sexo também se abre para ela. O sexo é a metáfora da vida, quando o que ela busca, efetivamente, é salvar a do neto. O sexo é a saída à morte e é, também, o encontro com o erotismo. Pois sim. Onde há a morte, lá se lhe interpõe Eros, com suas teias semânticas, suas sutilezas, seus caminhos confusos e intensos. E esse encontro com o erotismo não se dá apenas por causa da função assumida por Maggie - ela é uma das mulheres cuja função é masturbar os homens que vão até o sex club, através de um engenho japonês importado por Mikki (sobre estes detalhes, vejam o filme, plis). O erotismo brota quando Mikki a batiza, poeticamente, de Irina Palm. Este nome é maravilhoso: Irina, assim como Maggie, é um nome grego, e significa Paz. Palm, clara alusão à "melhor mão direita de Londres", significa palma (da mão) e é o elogio que o chefe faz aos bons serviços oferecidos ao gênero masculino londrino que freqüenta o sex club.

A pérola se expõe ao mundo através da mão que se abre (e que se fecha - afinal, estamos ainda falando de erotismo). O encontro com o sexo lhe põe por diante o encontro consigo mesma e com sua sexualidade. Maggie se apropria do seu erotismo, e isso a ajuda a enfrentar seus fantasmas: o marido infiel (ainda que já morto), e a parceira de cartas, que havia sido amante do seu marido e a tratava com escárnio e ironia.

Em meio às descobertas que a dança entre a Vida e a Morte lhe impõe, ela descobre a possibilidade do amor: Mikki se encanta por seu jeito e eles começam a aproximar-se um do outro, o homem que a revelou ao mundo e que a batizou tal qual se chamava uma das mulheres que foram importantes em seu passado começa a desejá-la, e a concha se abre para que saia a pérola Maggie, para que todos fiquem em paz: o neto toma o caminho da Austrália, Maggie rompe com a hipocrisia do seu subúrbio e assume outra história ao lado de Mikki, o homem que lhe presenteou com outra existência, o homem que a descobriu em seu casulo cinqüentenário.

É belíssima a história, muito poética, bem construída; tem roteiro enxuto e bem costurado, fotografia bonita. Algumas cenas se colaram ao meu pensamento, vou continuar pensando nelas durante uma semana, pelo menos... Há muitos temas bacanas que o filme me sugere, tais como a desidealização da mãe feita pelo filho Tom, a desconstrução da hipocrisia que há em lugares provincianos, o amor incondicional entre mãe e filho, a tolerância, os encontros entre os seres humanos.

Este é o segundo longa de Sam Garbarski, diretor nascido na Alemanha e radicado na Bélgica. Como o longa anterior de Garbarski, este é uma coprodução entre vários países, o que é uma tendência universal nos últimos anos (os jeitos de fazer cinema se somam e um acrescenta ao outro um pouquinho do seu savoir faire). A nossa protagonista é interpretada majestosamente por
Marianne Faithfull, e Mikki é interpretado por Miki Manojlovic, um ator que está na minha listinha de favoritos... ;)

Belíssima história. Dessas que me fazem ter gosto de ser humana para conhecê-las.








Quarta-feira, Março 26, 2008

Fragmentos


Ficou um fragmento de uma canção num postal chegado de Cabo Frio, há anos, quando ela já não esperava por ele:

"O amor poderiam ser quatro letras que se uniram ao acaso,
poderia ser um vir a ser perpétuo e perfeito,
ou, simplesmente, um momento que passou." (BOB DYLAN)

Ela não sabia dele havia muito tempo, mas não desconfiava de que ele morrera dois anos antes, em situações inexplicáveis... Aqueles versos eram o que restara daquele amor ingênuo. Era tudo.

Terça-feira, Março 11, 2008


Escrever num blog é como gritar diante do abismo de um canyon - o eco pode alcançar longitudes e estabelecer diálogos insuspeitados.

Domingo, Março 09, 2008

Navegantes

Navegar pela blogosfera é deparar-me com uma mise-en-abîme assombrosa. Acho que o conceito de mise-en-abîme que usamos na análise literária tem uma proximidade curiosa com os rizomas de que falam Deleuze e Guatarri. É como mergulhar num buraco negro e, ao mesmo tempo, entrar pelos ramos de um teia infinita. Até porque o universo o é. Uma coisa está dentro da outra, há uma infinidade de conexões, atrás de uma porta sempre há outra porta, e é preciso estabelecer um limite temporal para essas incursões pois o espaço é uma convenção ultrapassada, mas nem por isso menos necessária para entendê-lo. Isso é a blogosfera. Isso é o mundo flickr.

Sábado, Março 08, 2008

Salve 8 de março


Um feliz dia para nós, mulheres, e para os homens que, verdadeiramente, nos valorizam em nossas diferenças, lutas, sonhos e semelhanças. O caminho para a emancipação da mulher ainda é longo, não se iludam.
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