segunda-feira, julho 28, 2014

Poetas e seus temas

Há tempos não ouço falar sobre suicídios de escritores. Vários grandes escritores nos deixaram este ano, mas por morte natural, vitimados pelo peso dos anos e a decrepitude do corpo e foram lá, se juntar à maioria, como dizia algum grande escritor - agora me falha a memória -.

O suicídio, esse gesto voluntário e abnegado, se materializou entre muitas e muitas gerações de escritores e sensíveis. A alma sensível não suportará o peso do mundo? As omoplatas são frágeis, o estômago é lento ao digerir, a lombar dói insistentemente? Busco respostas para o que leva a alma sensível a saltar no abismo escuro e fundo da morte a si mesma. O mundo tem um preço alto a quem é capaz de suportá-lo, é o que sempre me pareceu. A sensibilidade me soa como algo incompatível com a crueza da Vida. 

Há quem fale, inclusive, dos suicídios políticos, uma escolha pela morte diante de contextos políticos insustentáveis e indigestos. O caso de Neruda, por exemplo. Muitos dizem que Neruda praticamente escolheu morrer depois de bombardearem La Moneda e tomarem, de golpe, o Estado conduzido por Allende e pela Unidad Popular. Neruda "decidiu" que viver não valia nada, diante dos algozes fardados. E, como ele, há tantos suicídios políticos por aí, corações que deixam de bater porque a desilusão se instalou profundamente entre as artérias, e já não há saídas...

Há, também, os suicídios femininos. Acredito que sejam datados, pois uma geração inteira de mulheres - escritoras e poetas - ceifou a própria vida ao longo do século XX. Qual era esse contexto? O quê as levou a buscar saída tão drástica diante de seus conflitos pessoais, dos becos sem saída em que nos metemos vez ou outra, e diante da linha - sim, uma linha - simples e torta que é viver?

A lista é grande: Virginia Woolf, Ana Cristina César, Alejandra, Pizarnik, Florbela Espanca, Sylvia Plath, Anne Sexton, Sara Teasdale, Alfonsina Storni, Violeta Parra. Mulheres poetas, almas sensíveis que se atreveram a ser mais do que lhes era permitido à sua época. Elas nos deixaram lindos poemas, versos intensos como sua passagem por este planeta azul, mas decidiram que ninguém, exceto elas mesmas, decidiria o momento de deixar este mundo. Afogaram-se, estouraram seus miolos, tomaram veneno, barbitúricos, atiraram-se do oitavo andar, asfixiaram-se com gás ou com monóxido de carbono... 

O caminho de viver era difícil, ou era difícil o ofício da escrita? Em que momento decidiram que viver já não valia a pena? A morte que tiveram as imortalizou, ou foi sua obra que o fez? O preço pago pelas mulheres para trazer à luz a sua arte era pagar com o próprio sangue a celebridade de seus versos? Essas perguntas ficam todas no ar. 

Compartilho os versos de duas delas, porque o que escreveram pode servir de chave de entendimento para o seu suicídio. 

Deseando morir (Anne Sexton)

Ahora que lo preguntas, la mayor parte de los días no puedo recordar.
Camino vestida, sin marcas de ese viaje.
Luego la casi innombrable lascivia regresa.

Ni siquiera entonces tengo nada contra la vida.
Conozco bien las hojas de hierba que mencionas,
los muebes que has puesto al sol.

Pero los suicidas poseen un lenguaje especial.
Al igual que carpinteros, quieren saber con qué herramientas.
Nunca preguntan por qué construir.

En dos ocasiones me he expresado con tanta sencillez,
he poseído al enemigo, comido al enemigo,
he aceptado su destreza, su magia.

De este modo, grave y pensativa,
más tibia que el aceite o el agua,
he descansado, babeando por el agujero de mi boca.

No se me ocurrió exponer mi cuerpo a la aguja.
Hasta la córnea y la orina sobrante se perdieron.
Los suicidas ya han traicionado el cuerpo.

Nacidos sin vida, no siempre mueren,
pero deslumbrados, no pueden olvidar una droga tan dulce
que hasta los niños mirarían con una sonrisa.

¡Empujar toda esa vida bajo tu lengua!
que, por sí misma, se convierte en pasión.
La muerte es un hueso triste, lleno de golpes, dirías.

y a pesar de todo ella me espera, año tras año,
para reparar delicadamente una vieja herida,
para liberar mi aliento de su dañina prisión.

Balanceándose allí, a veces se encuentran los suicidas,
rabiosos ante el fruto, una luna inflada,
Dejando el pan que confundieron con un beso
Dejando la página del libro abierto descuidadamente
Algo sin decir, el teléfono descolgado
Y el amor, cualquiera que haya sido, una infección.

In: http://www.poeticas.com.ar/Directorio/Poetas_miembros/Anne_Sexton.html

La última inocencia (Alejandra Pizarnik)


Partir
en cuerpo y alma
partir.

Partir
deshacerse de las miradas
piedras opresoras
que duermen en la garganta.

He de partir
no más inercia bajo el sol
no más sangre anonadada
no más fila para morir.

He de partir

Pero arremete ¡viajera!

In: http://www.los-poetas.com/e/pizarnik1.htm#NOCHE





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