domingo, setembro 03, 2006

Conto contemporâneo


Ciúme cibernético

Porque o amor é amor, em qualquer parte.

Com tudo que há nele.


Conheceram-se num desses sítios eletrônicos de relacionamentos de confiança, ao estilo do gazaag ou do orkut. Ele foi quem a viu primeiro: fotografia com o rosto de perfil, olhos desafiantes, queixo erguido, cabelo curto e escuro. Reconheceu, nela, um ímpeto que havia adormecido em si mesmo, e que já possuíra em outra época de sua vida. Desejou conhecê-la, encontrá-la, saber dela mais do que os atributos eletrônicos lhe conferiam. Desejou-a. Mandou-lhe, então, a primeira mensagem, escrita espontaneamente, em que dizia que ela parecia um sonho.

No universo cibernético, o primeiro flerte sempre é verbal. No princípio, era o Verbo. E assim será para sempre. Não há trocas de olhares, com o desejo revelando-se lenta e suavemente. Não há um corpo que responda ao chamado secreto de outro corpo. Há uma tela acesa, ícones gráficos, cores como representação de estar presente/ausente, tudo é simbólico. Ele a viu, pela primeira vez, em um retrato; não viu o corpo real, tangível. E pensou que ela era linda. Pensou, inclusive, que poderia não ser ela naquela fotografia; mas a representação pictórica de uma outra, uma outra que não ela mesma, simulacro, farsa, plágio. Sentir desejo pela imagem de outra, que não ela?!...

Ela lhe respondeu com cordialidade e certa doçura que “aquele era um sonho que ele poderia viver acordado”. Quando chegou a resposta através do correio eletrônico, ele sentiu, em seu íntimo, que era como se estivessem prometidos um ao outro. Como nas cartas de amor antigas, quando se assumia o compromisso do conhecer-se. Mas dessa vez a carta de anuência chegava pelo e-mail.

O amor na internet tem o gosto e o ritmo de um baile de máscaras. Não se vê o rosto da pessoa amada, mas sabe-se que ela está ali, porque há as intervenções verbais e, às vezes, uma câmera, ou uma conversa através de microfones milagrosos. Mas tudo é distorcido, as imagens são imprecisas, a voz pode parecer uma gravação alienígena, distante e entrecortada. E às vezes é mesmo melhor que permaneçam as máscaras sobre o rosto, que o amado ou a amada seja a deliciosa incógnita de um momento a ser desvendado posteriormente.

Viram-se pela segunda vez numa sala de bate-papo. A foto era outra, e começaram a falar de si numa volúpia que só eles entendiam. Desejaram-se. Desejaram a imagem que possuíam um do outro, queriam alcançar o que as mensagens e fotografias foram capazes de oferecer sobre eles. A idéia do que eles realmente eram antecedia o encontro. Gostaram do que se diziam, do que cada um passou a representar para o outro.

As semanas transcorriam, e o sentimento entre eles aumentava. Trocavam pequenas juras de amor eletrônicas, mandavam-se flores virtuais, serenatas polifônicas. Passaram a falar-se diariamente nas salas de bate-papo, em horas aguardadas ansiosamente, e a enviar-se mensagens por correio eletrônico.


Ele não podia ver o brilho nos olhos dela quando ela recebia suas mensagens, nem podia ver como o corpo de mulher se agitava diante da visão do seu nome escrito em azul na tela, chamando-a. Ela também não via os sorrisos que lhe brotavam no rosto quando ele recebia as mensagens que ela lhe enviava, sempre cheias de canções.
Eles não sabiam - que pena! - do prazer que se espalhava nos seus corpos. A alegria do encontro, quando pronunciada, se via apenas nas letras, nos ícones gráficos, na profusão de mensagens escritas. Ele também não pôde presenciar a taquicardia que a atacou quando ele lhe disse, pela primeira vez, que lhe queria bem.


Mesmo que ele não soubesse, todos os dias ela se vestia para ele. A escolha das cores, dos decotes, a textura dos tecidos, tudo era eleito como se ela fosse encontrá-lo durante ou ao final da jornada. Perfumava-se pensando em despertar o olfato do amado, pintava-se para o seu olhar, penteava-se para que ele pudesse, num gesto de afago, deixar-lhe revoltos os cabelos, que não passavam dos ombros. Ela já havia começado a viver para ele.


Ela não sabia, mas, ao longe, ele também vivia por ela. Ouvia as músicas que ela gostava, aprendeu a preparar os pratos com que ela dizia deleitar-se, descobriu as cores, os doces, os temperos e as fragrâncias de que ela gostava. Tudo aquilo formava uma coleção preciosa de afetividade e carinhos. Sua casa, agora, cheirava a chá de jasmim todas as noites: ritual que ela seguia antes de dormir e lhe havia contado.


Apreenderam um o ritmo do outro. Sincronizaram, amorosamente, a necessidade de sono que tinham em seus corpos e, assim, conseguiam estar conectados à internet cada noite, durante o tempo em que o outro estivesse, e suportavam, dessa forma, a impossibilidade da coexistência espacial. Não viviam na mesma cidade, embora vivessem no mesmo país. Mas o que era o espaço comum diante do amor que sentiam? Era o cenário perfeito, criam eles. Era como estar no paraíso, e não importaria mais nada.


A internet era o seu lost paradise, o espaço idílico do seu amor. Nela, habitavam cidades invisíveis, salas de bate-papo que apenas os dois povoavam durantes as várias horas de felicidade compartilhada durante as madrugadas insones. Entre eles, havia o desejo em conhecer o caminho do amado e da amada, adivinhar-lhe os olhares, os sorrisos, o calor da pele, os cheiros de cada parte do corpo. Tocavam as teclas do computador como se ali houvesse a pele do interlocutor querido, e estendiam os dedos pela sua superfície, num exercício sensitivo que era capaz de deixar todo o corpo arrepiado. A internet era o país imaginário onde se conheceram, como dois viajantes em terra alheia, duas almas errantes e solitárias que se encontram e se desejam.

O Amor não seria o mesmo se não houvesse a sensação de que o ser amado pode deixar de existir um dia. De que passe a dirigir os olhares amorosos a outrem, de que a devoção do afeto se desvie a outro corpo. Eis o ciúme. O horror de que o ser amado prefira outra cara, outro corpo, outro jeito de ser. Não importa onde apareça, ciúme é ciúme. Não importa se é na internet ou no namoro de bairro, mãozinhas dadas sentados no banco da praça e coração em chamas.

Pois foi o que se passou. Ele sentiu ciúme pela primeira vez quando se deu conta que ela tinha muitos admiradores. Que eles lhe dirigiam palavras efusivas, alimentando romances virtuais ou reais com ela. Sentia ódio quando encontrava recados eletrônicos na página dela, derramamentos que não suportava, em meio à sua paixão melancólica. Passou a vigiar o que escreviam a ela. E a rastrear as respostas que ela dava a esses recados. Sentia-se o pior dos seres, rastreando, como um cachorro faminto, os restos de comida deixados nos becos de uma cidade suja e antiga. Mas deu-se conta de que ela os respondia apenas de maneira cortês. Que não dava aos moçoilos em questão esperanças sobre romances ou encontros.

Embora fossem fantasias suas, ele não se contentava com o que lia. Acreditava que em outros espaços de comunicação virtual – ou real - ela haveria de vê-los, de estar com eles, ainda que só platônica ou virtualmente, e sentiu um ciúme absurdo do que ela podia estar dizendo a esses sujeitinhos no momento mesmo em que ela lhe deixava recados apaixonados na sua página pessoal. Passou a sentir muito ciúme dela e de tudo que a envolvia. Isso mesmo antes de verem-se pessoalmente. Mas dissimulava. Dissimulava toda a avalanche que lhe inundava o peito.

O ciúme revira os bolsos dos casacos, das camisas, das calças. O ciúme disseca as agendas e vasculha os espaços recônditos do ser amado. Enxerga o infundado, agiganta formigas e morre de tédio e angústia diante da espera pela revelação do desamor. E pela revelação – um dia, afinal, inevitável - de que o ser amado prefere o amor de outrem. No mundo virtual, o ciúme pega atalhos impensáveis em busca dos fatos reais, porque-quer-porque-quer que seja verdade que há um terceiro elemento nessa ou naquela história de amor. Porque talvez se creia que o triângulo amoroso também traz em si a perfeição que o triângulo tem para a Geometria.

Na internet, o ciúme faz conexões que só os rizomas de Deleuze e Guatarri explicariam. Abre páginas daqui, clica em links de lá, e, depois de inúmeras teias conformadas pelos cliques e deslocamentos de mouse, ei-nos diante da prova irrefutável do desamor e da traição. Chega-se a lugares inequívocos, a provas incontestáveis, a testemunhos honrados de que o amor já não nos quer. Já não se é o preferido. É um caminho cheio de atalhos e rotas de fuga, onde vai-se trilhando as pegadas do ser amado e dá-se de cara com sua foto estampada na página pessoal de outra pessoa, e lê-se ali a mensagem que se queria na própria página: leve, despretensiosa, sem a tensão gerada pela paixão. Geralmente é uma mensagem de afeto a um amigo ou amiga, mas tão intensa e verdadeira, que é capaz de gerar ódio. E o que se deseja é criar, ali mesmo, a bomba cibernética.

O que aconteceu a ele foi exatamente isso. Uma noite, leu uma mensagem que ela havia escrito a um amigo. O afeto estava estampado com todas as letras e marcas. Mas o que ele não foi capaz de entender é que, com aquele amigo, ela não sentia a insegurança que acompanha a paixão, e que o amor de amigo é um lago sereno, se comparado ao mar desgovernado da paixão. O que ele leu foi que ela o desejava. O que ela dizia era que o amigo era o lago sereno da amizade. Ela queria dizer-lhe que o espaço dele na sua vida era eterno. Ele leu que ela queria mergulhar em outra história de amor.

O ciúme, o ciúme. Esse anjo torto, de flechas envenenadas. Ele desejou vingar-se, em meio à sua fúria. Despertou nela a insegurança que sentia, tirou-lhe o chão, jogou-a à areia movediça do medo da perda e do abandono. Passaram a sentir inveja de todas as pessoas que podiam ver de perto e tocar o corpo do amado/ da amada. Inveja, esse sentimento primitivo. Inveja, o desejar o que é alheio a si.

Separaram-se sem nem ao menos se encontrarem na cidadezinha no meio do caminho entre suas casas, onde haviam combinado de encontrar-se. Deram-se conta de que o que possuíam não era real, que a sua existência amorosa era uma ficção. Porque as histórias de amor acabam de modo inexplicável, e o dia fica estranho, não faz frio nem calor, as horas deixam de fazer sentido, e vai-se pela rua, sem destino, até cruzar com outra história, em uma esquina distante.

Fabiana Brandão. Belo Horizonte, março a setembro de 2006.

Um comentário:

Anônimo disse...

Amei o texto!!! A cada novo texto seu fico mais encantada...Adoro ler cada um deles!!!
Beijos!!!
Amo-te!!!