segunda-feira, junho 19, 2006

Os três erres e o Futurismo

Dinamismo di una testa di dona. Boccioni. 1914


Sinal vermelho para o desperdício. Num momento em que se fala tanto de consumo cidadão, venho chamar atenção para a importância da ecologia amorosa. Um dos meus interlocutores, o adorável Fernando, me presenteou com a imagem (e constatação) da "era descartável". Tudo tem sido tão superficial nas relações interpessoais!... Onde foi parar a intensidade???

A "era descartável" é fruto da era tecnológica atual, primeira constatação. Segundo o Fer, culpa da velocidade da informação, o que causa a vertigem do "agora-ou-nunca", do tempo que se esgota sem que nos demos conta. Somos os filhos eternamente devorados por um Chronos furioso... E com a fibra ótica, com a banda larga, com as tecnologias por satélite tudo se intensifica. E se torna rarefeito. As relações têm caminhado nessa velocidade vertiginosa, o corpo e a mente não conseguem acompanhá-la: mal entramos em uma relação, ela já termina, e outras vêm, sempre há tantas possibilidades, tantas coisas são possíveis nesses "espaço e tempo comprimidos"( sobre essa definição vide Stuart Hall )!

A tecnologia trouxe muitos benefícios à humanidade, mas também fragilizou as relações em alguma medida. As cartas escritas, os cafés tomados em tardes de conversas e contemplação, os namoros no sofá davam uma dimensão mais sólida às histórias, sobretudo às histórias de amor. As pessoas viviam as histórias de amor paulatina e intensamente. Cada gota amorosa caía sobre os lábios, era saboreada delicadamente e depois engolida. Hoje, engole-se sem mastigar. Há uma voracidade que não conseguimos acompanhar. E o ser humano sente-se triste. E sente-se vazio.

As relações são superficiais hoje em dia, segunda constatação. Como o tempo é voraz, não se aprofunda nada. Conhece-se, sente-se a atração necessária, cama, sexo, adeus. Polinômio vazio. Pessoas vazias. Não acredito que alguém se deixe preencher por essa lógica. Ou que essa lógica seja confortável. Exceto quando as pessoas não querem envolver-se. Esse é o ponto. O não-envolver-se gera um desperdício dos recursos. A era descartável criou as relações descartáveis, criou mesmo as pessoas descartáveis. "Fica-se" com alguém por uma noite, afinal a vida é tão ampla, há tantas noites por viver, tanta gente por conhecer!... Por que perderei tempo vivendo uma única história?... Por quê devo deter-me em uma única paragem quando a estrada segue longa e verde diante dos meus olhos?

Busca-se o que nesse caminhar? A si mesmo? Alcança-se muito conhecimento sobre si mesmo, é verdade, mas não há tempo para digerir esse conhecimento, surgem náuseas em meio ao turbilhão de encontros, em meio à superficialidade dos rendez-vous, ao multiplicado universo aberto diante do ser humano. Não olho para ninguém, a não ser para mim mesma quando estou nesse movimento desenfreado. É um exercício narcísico: quero meu prazer, quero ver a mim mesma nos olhos do outro, quero a mim, a mim, só a mim. Não me interessa o outro nessa busca do "descartável". Estou obcecada pela velocidade quando vou nesse rumo; por isso nunca fomos tão futuristas. O Futurismo é uma realidade tangível. Talvez não acreditassem nessa possibilidade quando Marinetti falava disso lá pelos idos das primeiras décadas do século XX. Hoje não se pode fugir das conseqüências do Futurismo.

A tela de Boccioni mostra o "dinamismo da cabeça de uma mulher". Talvez seja a melhor forma de representar a cabeça do ser humano nessa era contemporânea: fragmentado, descontínuo, imperfeito. O imperfeito não se solucionará nunca. Mas o estar fragmentado deve-se a esse momento de que falei acima. Na busca, rompemos uma linearidade que já se sabia frágil mesmo em outros momentos, mas que subexistia.

As pinceladas são descontínuas, não há uma unidade na cor do rosto, a cor da pele é muito pálida, assustada. Um olho - triste - vê, enquanto o outro, fechado, alheio a tudo, não consegue acompanhar esse mundo caótico. O que essa tela me passa de sensação é que esse rosto - triste - de mulher não consegue se comunicar. A boca fechada, ou destruída, foi abalada pelo movimento, mesmo porque os futuristas pregavam o fim do feminismo. E não consigo deixar de fazer essa observação aqui... Mas não a restrinjo à mulher, creio que ela se estende à incomunicabilidade disseminada sobre o ser humano. A recusa em se entregar, em não viver as histórias de amor ou quaisquer outras gera a incomunicabilidade.


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A definição dos "três erres" - redução, reutilização e reciclagem - pode aplicar-se, com as devidas poporções, ao amor e à ecologia amorosa. Reduzir o "consumo de pessoas" seria uma primeira coisa a se pensar. A palavra consumo é uma provocação, que não se entenda de outra maneira. Porque as pessoas não são "coisas", não são "objetos". Mas a "era descartável" faz pensar que sim. Transforma tudo numa carnavalização dos afetos: tudo acaba na quarta-feira de cinzas. Nada vinga depois disso...

A reutilização seria a saída para romper a lógica louca da "era descartável". Voltar à conversa de janela e portão, não necessariamente de maneira literal, mas saborear o agora intensamente, voltar sem medo ao lugar onde se foi feliz, rastrear o gostar que foi despertado em outro coração. A velocidade faz as pessoas terem medo. As certezas escasseiam. O que é veloz pode até ser intenso, mas não tem raízes. Passa. Pode nos atropelar, causar-nos dano, inclusive, mas não deixa intensidades. A intensidade é o que dá o caráter perene aos afetos.

A reciclagem precisa ser feita aos seres humanos. Voltarmos ao estado de matéria e sermos remoldados sobre o que já somos agora ou fomos um dia. Retomar uma delicadeza e uma intensidade necessárias à ordem que estrutura o ser humano. Voltaremos a ser profundos quando entendermos que a passagem do tempo e a possibilidade do deslocamento por diversos espaços têm que somar a nós, e não subtrair. Porque ultimamente nos sentimos subtraídos, já que não conseguimos ter tudo que se abre aos nossos olhos. E o sentimento que fica é de sermos vazios, pequenos, infelizes. Busca-se exaustivamente o que pode estar dentro de nós, e não no outro. O que vou encontrar no outro é o que confirmará minha felicidade, não o que a fará existir.

Ir tão rápido pode ser bom em momentos em que temos medo, e queremos cruzar logo a ponte. O rio pode estar cheio, a ponte pode estar frágil. Às vezes é preciso ir mais rápido, disso pode depender nossa sobrevivência. Mas ir tão rápido nos aproxima também da morte, uma morte simbólica que pode ser muito difícil de experimentar. E cada um é quem vai escolher seus caminhos. Não posso querer que o outro viva o mesmo que escolhi pra mim. Tenho que contar com a sincronicidade e aguardar. Aí acontecerá o encontro.







2 comentários:

Fernando Henrique Lemos Rodrigues disse...

Bia, a pergunta que fica é: por que quem gosta de viver intensamente é tomado como aquele que não sabe viver? Ou seja, aquele que não gosta do "one way" é tomando como bicho estranho? Até que ponto precisa-se estar só para sentir-se livre? Não era melhor uma conversa em que se definem os limites? Beijo...

Anônimo disse...

Ai, quem sou eu?